quinta-feira, 10 de maio de 2018

É obrigatório orar em nome de Cristo?

Vi há tempos, a seguinte afirmação, numa revista de escola dominical, que é traduzida doutra revista americana:
O Ricardo estava ausente de casa numa viagem de negócios. Com saudades da família, ele decidiu telefonar-lhes do hotel em que estava instalado. Mas, sempre que marcava o número aparecia-lhe a mesma voz: “Para estabelecer a ligação tem de usar um código de acesso”. Farto de ouvir a mesma mensagem, ligou para a recepção de onde o informaram de que precisava de um código para completar a ligação, de forma a que as chamadas telefónicas lhe fossem debitadas na conta. Esclarecida a questão, o Ricardo lá conseguiu ter uma agradável conversa com a sua esposa e filhos.

Da mesma forma, Jesus é o nosso código de acesso a Deus. Por causa do Seu nome, o nosso gozo se cumpre quando falamos pessoalmente com Deus. Assim sendo, temos mais uma forma de compreender o valor de orarmos em nome de Jesus.

Isto levanta várias questões, a todos nós, quer os que “aprenderam” desde tenra idade, que devemos orar sempre em nome de Jesus, quer os que têm recebido esse “ensino” desde a sua conversão.

Afinal, porque oramos a Deus o Pai, em nome de Jesus? Se não for assim, Deus não nos pode ouvir? Ou será que é para "dar mais força" às nossas orações? Ou será para obrigar, ou de certa maneira pressionar a Deus a atender os nossos pedidos?

Em primeiro lugar, julgo que ninguém tem dúvidas de que o homem está perdido e só através da morte de Cristo em seu lugar poderá ter acesso ao Pai. Esta é a mensagem básica dos evangelhos. É através do sangue de Cristo que temos acesso ao Pai. Isto não está em dúvida, mas sim a obrigatoriedade de terminar as orações dizendo “... é em nome de Cristo que oramos”, ou outra frase idêntica.
Vejamos as informações que temos na Bíblia, e em particular o que o próprio Jesus nos ensinou sobre o assunto.
Encontramos mais de 40 referências à oração e ao verbo orar, no Novo Testamento.
Vejamos o que podemos concluir destas passagens:

1) Temos alguns exemplos de oração e a tal frase nunca é utilizada.

2) Há passagens didácticas sobre a oração em algumas epístolas, e nunca se nota a preocupação com este pormenor.

3) Na oração padrão que Jesus ensinou, quer na versão de Mateus 6:9/13 quer em Lucas 11:2/4, a oração termina sem a afirmação de que oramos em nome de Jesus.
A expressão de Jesus “Em meu nome” aparece várias vezes nos evangelhos, quando se refere a:
1) Receber um menino em nome de Jesus.
2) Reunirem-se dois ou três em nome de Jesus.
3) Dar um copo de água em nome de Jesus.
4) Expulsar demónios em nome de Jesus.
5) Envio do Espírito Santo em nome de Jesus.

É neste contexto bíblico neotestamentário que devem ser lidas as seguintes passagens, todas elas registadas pelo evangelista João.

João 14:13/14 E, tudo quanto pedirdes em meu nome, eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. Se pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei.
João 15:16 Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que, tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai, ele vo-lo conceda.
João 16:23/24  E naquele dia, nada me perguntareis. Na verdade, na verdade vos digo que tudo quanto pedirdes a meu Pai, em meu nome, ele vo-lo há-de dar. Até agora nada pedistes em meu nome; pedi e recebereis, para que o vosso gozo se cumpra.
João 16:26/27 Naquele dia, pedireis em meu nome, e não vos digo que eu rogarei por vós ao Pai; pois o mesmo Pai vos ama; visto como vós me amastes, e crestes que saí de Deus.
Em primeiro lugar, não vemos aqui uma norma de oração para ser rigorosamente cumprida, mas uma permissão que Jesus nos dá, de pedirmos em seu nome. Mas o que significa pedir em nome de Cristo?
No contexto cultural em que Jesus viveu, a expressão em nome de alguém, significava muito mais do que o simples mencionar do nome.
Não se trata dum simples ritual ou fórmula litúrgica ou até fórmula mágica. O nome, na cultura hebraica implica tudo que o nome sugere.
Em nome de Cristo, significa uma perfeita sintonia com o pensamento de Cristo, sua autoridade e seus valores. Temos em Actos 4:24/31 um bom exemplo duma oração com a mentalidade de Cristo, embora não se mencione que oravam em nome de Jesus Cristo.
O importante não é afirmar que se ora em nome de Cristo, mas sim que essa sintonia com o nome de Cristo seja uma realidade, pois se essa condição não existir, a simples afirmação de que se ora em nome de Cristo, não passará de simples ritual destinado a ser ouvido pelo homem religioso, mas que nada significa para Deus o Pai.
Para concluir, gostaria de contar uma velha história que pode bem ilustrar a nossa posição, quando utilizamos impensadamente a expressão em nome de Cristo, ou pior ainda se a utilizamos pensando assim pressionar a Deus a ouvir as nossas orações.

Houve dois jovens que foram mobilizados para a guerra de África. Um era natural do norte de Portugal, e ou outro era do Algarve, bem a sul de Portugal.
Tornaram-se amigos inseparáveis, pois sofreram juntos os horrores da guerra, e juntos correram os mesmos perigos, até que certo dia, o jovem do norte de Portugal é ferido mortalmente. Os seus últimos pensamentos foram para o seu pai, e diz ao seu amigo. - Eu vivia sozinho com o meu pai. Sou filho único e o meu pai não tem mais ninguém. Nem sei o que lhe vai acontecer, quando souber que morri. Mas há um pedido que te faço, que é a única coisa que o poderá ajudar. Se conseguires voltar a Portugal, vai falar com ele e diz-lhe que foste meu amigo e estiveste comigo até ao fim.
A guerra terminou, o jovem algarvio volta a casa, mas não se esquece da promessa que fizera ao seu amigo. Na primeira oportunidade, num fim de semana mais prolongado, faz a viagem ao norte de Portugal para localizar o pai do seu amigo.
Consegue localizar a aldeia e pergunta pelo Senhor João, o pai do seu companheiro, mas recebe a seguinte resposta.
- Ele mora nessa casa isolada que se vê lá ao longe, mas nem pense que consegue falar com ele. Esse velho quase que enlouqueceu quando soube que o seu único filho morreu na guerra. Vive isolado e não quer falar com ninguém.
Mesmo assim o jovem vai tentar falar com o pai do seu amigo. Depois de andar pelos caminhos do monte, chega a uma casa isolada com todas as portas e janelas trancadas.
Bate à porta, mas ninguém lhe responde. Insiste e chama pelo Senhor João, dizendo: Eu vim do sul de Portugal só para lhe falar. Eu sei que me está a ouvir. Peço-lhe só um pouco de atenção... Tudo em vão. Ninguém responde.
Quando já desiludido, o jovem se prepara para desistir, diz ainda: Tenho muita pena que não me tenha atendido, pois eu estive com o seu filho....
Parece que foram as palavras mágicas. Ouve-se imediatamente o abrir das portas e o velho respondeu: Espere aí... Não se vá embora... Você esteve com o meu filho?!!! Eu quero falar consigo.... Entre que a casa é sua.
Agora, que pensaríamos nós desse jovem se ele dissesse: Então é esse o código que tenho de utilizar sempre que falar com este velho, é essa a frase que tenho de repetir... estive com o seu filho.... estive com o seu filho..... estive com o seu filho?
O que pensaríamos nós da sua sensibilidade e do respeito pelo pai do seu companheiro?
Pois foi isso que eu fiz tantas vezes, ao terminar as minhas orações dizendo impensadamente ....... Desculpem, mas não vou repetir sem necessidade, por respeito ao nosso Pai.
Procuremos estar em sintonia com a mensagem de Jesus, e com o seu pensamento.
Procuremos actuar como Ele nos ensinou, para que através do Espírito Santo, Jesus possa actuar através dos seus, e então, o Pai nos concederá a bênção de orarmos como Jesus orava.

Por: Camilo - Marinha Grande